Cristianismo: a religião do homem – Mário Ferreira dos Santos
“O cristianismo não é uma religião cultural, porque não depende de uma cultura determinada. Uma religião cultural é a religião que pertence especificamente a um círculo cultural, como observamos no bramanismo;o cristianismo não é uma religião dessa espécie, porque é universal. Seus fundamentos, como passaremos a demonstrar, não pertencem à esquemática de um ciclo determinado da cultura humana, mas sim à esquemática do homem enquanto homem, por isso, não pode enquanto tal tender apenas para a esquemática daquela cultura determinada, mas sim da própria natureza do ser humano.
É uma religião natural do ser humano,enquanto consideramos a sua natureza, não apenas a sua parte corpórea, mas também a sua parte psíquica e espiritual. Não é uma religião racial porque não depende de qualquer raça, seria um erro julgar que fosse apenas uma manifestação, um estágio posterior do mosaísmo e que se constituísse propriamente numa religião hebréia ou judaica, absolutamente não. Formou-se e surgiu numa determinada área racial e cultural, mas isso não quer dizer que não pertença à parte mais genérica do homem do que as partes mais específicas. Não é uma religião racial, não está ligada à raça judaica, está ligada ao homem enquanto homem.
Não é também uma religião de casta, porque as castas podem formar as suas religiões e as têm formado, mas o cristianismo nunca foi religião de castas, nem de estamento, nem de classe para depois avassalar as classes ou subordinadas ou subordinantes, e não surgiu como uma religião de classes , mas como uma religião do homem, por isso é a religião do homem concreto, do homem tomado em sua totalidade, do homem corpo e espírito, do homem soma e sema, do homem que é corpo e alma e por isso independe inclusive do tempo.
Poderia surgir em qualquer instante de tempo, não está determinado às condições históricas em que surgiu, poderia ter surgido antes, como poderia ter surgido depois, as suas possibilidades não dependem das condições históricas. O cristianismo não é uma religião que surja apenas da síncrese de muitas religiões, porque oferece aspectos que lhe são próprios, peculiares e sui generis. O cristianismo não é apenas, como querem muitos ver, uma reunião dos cumes das diversas religiões ou uma religião meramente sincrética; não é uma religião sincrética nem apenas sincrítica, porque , embora tenha os aspectos superiores de todas as religiões, oferece aspectos que lhe são próprios, peculiares e sui generis; e porque apresentou pensamentos novos, soluções novas a velhos problemas, trouxe uma mensagem, sem dúvida alguma nova, uma boa nova, que é propriamente a palavra do Evangelho, e esta característica do cristianismo o torna, como religião, completamente distinta das outras.
Ainda que os pontos altos de todas as religiões nele se concrecionem, não é um novo avatar de uma crença, porque não se reduz totalmente a nenhuma outra; não se pode dizer que é uma manisfestação do judaísmo, do mosaísmo, nem tampouco do budismo, do pitagorismo, muito embora encontremos raízes do cristianismo nos essênios , nos pitagóricos, na escola de Melquisedeque,nos judeus,nos árabes e nos egípcios, e também no pensamento hindu, no Tibete e em todos os povos.
O cristianismo não é um novo avatar, não é uma nova possibilidade dessas religiões, não é uma crença que apenas está repetindo o que já foi pensado e também não se reduz consequentemente a essas outras crenças,não se pode apenas defini-lo como sendo uma dessas crença,ele apresenta as suas peculiaridades, apresenta as suas propriedades que são únicas, exclusivas da sua doutrina. Já afirmamos mais de uma vez que o cristianismo é a religião do homem concreto. É a religião do homem tomado no seu aspecto superior , isto é, o homem na sua espiritualidade, o homem considerado como um ser que possui uma vontade livre, um entendimento capaz de compreender todas as coisas proporcionadamente às suas condições e capaz também de alimentar um amor imenso que aproxime e vença todos os obstáculos . Este é o cristianismo. O cristianismo não promete, não pede apenas a aniquilação da personalidade humana, não pede a submissão total do homem, não promete o aniquilação do indivíduo, não afirma que as nossas determinações pessoais sejam inúteis , de tal modo que possam nos tornar infelizes; o cristianismo afirma que podemos salvar-nos, mas tendo e contendo-nos dentro de nossas próprias determinações; é uma religião pessoal, da pessoa humana, é uma religião do homem na sua concreção.
Ela não pede que o homem se submeta,que o homem se aniquile, que o homem se entregue; pede que o homem escolha pela sua vontade livre e pelo amor purificado aquilo que o transcende e o supera, ao qual deve novamente ligar- se pela sua natureza, mas não está religado pelo seu espírito,que não está religado pelo seu entendimento; a sua verdadeira religião não é a nossa religação às coisas do mundo, porque podemos pertencer ao mundo como pertencemos, podemos também ser partes deste mundo, estar sujeito às leis cósmicas, mas nossa vontade,a nossa inteligência podem rebelar-se; podemos pela vontade desejar não pertencer a este mundo, podemos lamentar estar dominados por estas leis, poderíamos constantemente anular uma libertação dessa sujeição, neste caso desejaríamos desligarmo-nos completamente deste, afastarmo-nos dele e não estar submetido às suas leis.
Na religião cristã o homem novamente religa-se a Deus, mas religa-se compreendendo que este religamento não é mais para ele uma prisão, mas é a abertura para uma nova liberdade;a sua salvação não é apenas uma entrega, não uma submissão, não é um aniquilamento, não é uma anulação de si mesmo, ao contrario, é a elevação de si, é a sua mais alta afirmação, é a aquisição dos maiores poderes para que possa então , plenamente afirmar-se, a afirmação da sua personalidade, da sua vontade ; este anelo para o afirmar do bem e do seu entendimento, este anelo cheio de vontade da verdade, tudo isso poderá se unir nele para que se eleve, para que se engrandeça, para que atinja as raias do transcedente.
Visto sob estes aspectos, o Cristianismo é universal, porque pertence a todos os ciclos culturais. Ele foi o pensamento verdadeiro mais profundo de todos os ciclos culturais, sendo, por isso, inseparável da religião do homem nos seus aspectos perfectivos. É o homem enquanto Vontade, Entendimento e Amor, correspondendo, na concepção católica, às Três Pessoas da Trindade. Caminhando neste sentido, retiraremos o homem do pântano em que está afundado, do estado de desespero no qual imergiu, podendo tornar a oferecer-lhe uma nova perspectiva e esperança, que poderá solidificar uma fé verdadeira e robusta.”









